LEIA NA ÍNTEGRA A CARTA DE posicionamento frente ao Super El Niño e seus impactos no Brasil:
A Rede por Adaptação Antirracista e o Observatório do Clima dirigem-se aos Ministérios acima identificados para expressar preocupação diante da probabilidade anunciada pela agência norte americana National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA)1 e pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)2 dos impactos do fenômeno Super El Niño no Brasil e para solicitar esclarecimentos urgentes sobre as estratégias governamentais em curso.
Organizações que compõem essas redes atuam há anos na agenda de adaptação climática e, a partir das periferias, das populações negras e das comunidades tradicionais, exigem transparência diante dos cenários críticos previstos por pesquisadores e instituições de referência climática. Isso porque, estão ao lado daquelas pessoas que, sistematicamente, enfrentam perdas e danos na linha de frente dos eventos climáticos extremos e que, igualmente de forma sistemática, são as últimas a receber informação qualificada e atenção nos processos de prevenção, resposta e reconstrução.
Esta carta é fruto das reflexões acumuladas em nossa prática, sob uma perspectiva crítica formulada nos territórios atingidos e ameaçados, muitas vezes por organizações comunitárias, bem como nos espaços de diálogo sobre adaptação climática antirracista. Não falamos aqui de um lugar abstrato: falamos das periferias que abrigam mulheres, crianças, idosos, pessoas LGBT+ e pessoas negras, cujos corpos e vidas continuam sendo tratados como descartáveis pelo Estado. É a partir desse lugar que demandamos maiores informações sobre as estratégias de atuação e as ações previamente organizadas para responder a situações extremas com RISCOS PREVISÍVEIS e, portanto, DESASTRES REMEDIÁVEIS.
CONTEXTO:
O fenômeno Super El Niño que iremos vivenciar nos próximos meses e que já acumula expressivos eventos climáticos extremos ao longo dos últimos anos, desde o último El Niño em 2023-2025, representa um desafio climático importante a ser enfrentado. Se confirmado, o Super El Niño representará um fenômeno que não acontecia desde 1870 e trará consigo extremos de chuvas, que poderão ocasionar deslizamentos e enchentes, assim como extremos de seca, com períodos de estiagem que, que podem se desdobrar em estresse hídrico e insegurança alimentar, aumento de incêndios florestais, entre outros problemas.
Diante disso, nos parece que a resposta do poder público continua a seguir um padrão que precisamos nomear: agir somente após o desastre. E precisamos que o poder público, após definir instrumentos tão importantes como o Plano Clima e o Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil supere esse histórico de negligência. Observamos também, que as ações priorizam geralmente as regiões mais centrais das cidades, e implementam infraestruturas para o aumento do capital dos territórios economicamente valorizados, enquanto as periferias, as margens e as zonas de risco ocupadas por populações negras, quilombolas, rurais e pobres seguem desassistidas.
Os estados do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Paraíba, Amazonas e Rondônia, nos dão exemplo dolorosos e emblemáticos: as obras emergenciais priorizaram os aeroportos e as zonas centrais, enquanto as margens dos rios, os territórios tradicionais afetados por secas extremas e as zonas periféricas afetadas por grandes inundações ainda aguardam ação efetiva. Esse padrão se repete em todo o Brasil e não é acidente, é resultado de uma ausência deliberada de estratégia de priorização.
Identificamos nós críticos que precisam ser urgentemente enfrentados:
- Ausência de priorização territorial com recorte de raça e gênero: os planos de ação climática, prevenção de enchentes e reconstrução carecem de dados desagregados que permitam identificar quem está morrendo mais e quem está perdendo tudo;
- Permanência não é prioridade: Defendemos a habitação como um direito para todas as pessoas, a permanência como prioridade! Essa é uma medida de adaptação climática antirracista, capaz de garantir proteção as populações e territórios vulnerabilizados. Portanto, se faz necessário uma estratégia intersetorial que, com a ameaça dos desastres, implemente de forma prévia e organizada, abrigos seguros e prazo estabelecido para obras e reformas de reconstrução e/ou reforma, em casos de danos em domicílios;
- Política de remoção sem dignidade: as chamadas “remoções” continuam sendo priorizadas e executadas de forma violenta e sem participação das comunidades. O que defendemos é que a realocação não seja a primeira resposta do Estado e que, caso seja extremamente necessária, envolve planejamento e diálogo. A forma participativa, nesses casos, não é um benefício, mas o reconhecimento de décadas de negligência por parte do Estado, sendo expressão do princípio democrático da soberania popular, que deve ultrapassar a participação eleitoral, envolvendo decisões políticas mais amplas, inclusive o planejamento das cidades;
- Falta de planejamento prévio em assistência às populações vulnerabilizadas: estados e municípios apresentam falhas nos procedimentos de cadastro, com problemas para estabelecer critérios justos na distribuição de benefícios sociais, como: aluguel social, tarifa social nas contas de água e energia, auxílio reconstrução, suporte psicológico às famílias afetadas, regularização fundiária, disponibilização e acompanhamento nos laudos técnicos do imóvel e etc. Defendemos que seja feita uma articulação prévia intersetorial, para definição de estratégia de gestão de riscos a desastres na assistência social, habitação, saúde e educação, que comunique, consulte, delibera e define ações juntamente com as instâncias representativas da sociedade civil, lideranças comunitárias e movimentos sociais, e instituições públicas, como as secretarias dos estados e municípios, o ministério público e a defensoria pública;
- Planos diretores e políticas de habitação a serviço do capital imobiliário: em pleno 2026, o setor da construção civil segue com passe livre para remover populações e lucrar em cima de desastres, sem qualquer compromisso com adaptação baseada na natureza ou nos interesses das comunidades;
- Ausência ou ineficiência nos planos diretores diante da crise climática: Compreendemos que o plano diretor, como um documento que estabelece diretrizes para o cumprimento da função social da cidade, deve apresentar medidas de adaptação antirracista. A realidade que observamos em 2026 é que, em muitos casos, esses documentos são formulados para atender interesses privados e não apresentam resposta eficiente aos eventos extremos cada vez mais frequentes. Defendemos que os planos diretores devem incluir simultaneamente o mapeamento atualizado das áreas de risco e o planejamento para que não sejam produzidos novos riscos. Isso inclui o fortalecimento dos mecanismos de proteção de áreas verdes e o aprimoramento de serviços de saneamento básico;
- Fragmentação e opacidade nas políticas de drenagem e segurança hídrica: não há ações, estratégias e políticas coordenadas sobre drenagens e segurança hídrica para as regiões mais vulnerabilizadas no contexto urbano do país. Obras de drenagem estão paralisadas nas grandes metrópoles, e as gestões amazônicas continuam vulnerabilizando comunidades tradicionais a partir da escassez hídrica, e isso representa um projeto de morte frente aos eventos climáticos que se aproximam cada vez mais rápido.
NOSSA DEFESA:
Nossa posição é clara: a adaptação climática precisa ser transformacional. Isso significa corrigir desigualdades estruturais e reposicionar populações vulnerabilizadas como protagonistas das soluções, não como beneficiárias passivas, não como narrativas de campanha, mas como sujeitos políticos centrais no planejamento, na execução e na avaliação das políticas públicas.
Defendemos que os princípios que orientam a Secretaria Nacional de Periferias
precisam nortear todo o governo federal quando o assunto é gestão de eventos climáticos extremos. Hoje, essa Secretaria é tratada de maneira “periférica” dentro do próprio governo e precisamos transformar as iniciativas de construção comunitária da gestão de riscos e desastres uma prioridade para o país.
Reconhecemos a importância dos planos comunitários de gestão de riscos e desastres desenvolvidos com apoio da Secretaria Nacional de Periferias, com pequenas obras de contenção de encostas e soluções baseadas na natureza. Mas essa iniciativa precisa deixar de ser pontual e tornar-se estrutural, integrada e com financiamento adequado.
Ressaltamos que são as organizações comunitárias, muitas lideradas por mulheres negras, indígenas e quilombolas, que estão salvando vidas, construindo estratégias de prevenção e contenção de desastres nos momentos de crise, acentuando suas inúmeras jornadas de trabalho, intensificando o trabalho do cuidado sem financiamento alocado, sob apoio de campanhas de financiamento coletivo e pequenos recursos, sem qualquer reconhecimento institucional como implementadoras legítimas das ações de adaptação e gestão de riscos. Isso é inaceitável.
Pedidos aos ministérios:
1. Casa Civil da Presidência da República
Pedido de reunião e esclarecimentos: Solicitamos reunião para compreender como a Casda Civil no âmbito da presidência do Conselho Interministerial de Meio Ambiente e Mudança do Clima está coordenando, a nível federal, as políticas de prevenção, resposta e reconstrução frente ao Super El Niño, com atenção especial à articulação com estados e municípios em situação de vulnerabilidade climática e comunicação com as populações mais vulnerabilizadas.
a) Comunicação para a população: Solicitamos transparência na informação sobre quais estratégias e protocolos estão sendo desenvolvidos para reduzir os riscos climáticos de desastre que vulnerabilizam populações periféricas, negras e de comunidades tradicionais, assim como outros grupos historicamente sub-informados diante da aproximação de uma situação de emergência PREVISTA.
- Quais as áreas e territórios de maior risco de desastre?
- Mediante aos impactos previstos com a chegada do Super El Ñino, qual é o plano de contingência ou preventivo, e como isso será comunicado de forma antecipada e acessível para os territórios?
b) Construção de estratégia preventiva ou plano de contingência a desastres: Solicitamos informações sobre quais ações e estratégias preventivas estão sendo desenhadas no âmbito do Conselho Interministerial de Meio Ambiente e Mudança do Clima, com os prazos e estratégias de comunicação e articulação interfederativa.
2. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional
Pedido de reunião e esclarecimentos: Solicitamos reunião para compreender como o Ministério está coordenando, a nível federal, as políticas de prevenção, resposta e reconstrução frente ao Super El Niño, com atenção especial à articulação com estados e municípios em situação de vulnerabilidade climática, conforme mapeamento do Cemaden.
a) Comunicação para a população: Solicitamos transparência na informação sobre quais estratégias e protocolos estão sendo desenvolvidos para reduzir os riscos climáticos de desastre que vulnerabilizam populações periféricas, negras e de comunidades tradicionais, assim como outros grupos historicamente sub-informados diante da aproximação de uma situação de emergência PREVISTA.
- Quais as áreas e territórios de maior risco de desastre?
- Mediante aos impactos previstos com a chegada do Super El Ñino, qual é o plano de contingência ou preventivo, e como isso será comunicado de forma antecipada e acessível para os territórios?
b) Participação da estratégia preventiva ou do plano de contingência a desastres com participação de associações, coletivos, comunidades, movimentos sociais e/ou Núcleos Comunitários de Defesa Civil (NUPDECs): Solicitamos a integração das estratégias preventivas nos Estados e municípios com as estratégias ações, planos e protocolos, das comunidades nos territórios para ação da Defesa Civil de modo a informar a população sobre os riscos de ondas de calor, enchentes, inundações, deslizamentos de terra e estiagens que podem ser impulsionados com a chegada do fenômeno do El Niño.
c) Orçamento para prevenção e gestão de riscos e desastres: Qual o orçamento de prevenção e emergência destinado a estados e municípios com maior probabilidade de ocorrência dos desastres com a chegada do El Ñino?
3. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
Pedido de reunião e esclarecimentos: Solicitamos reunião para compreender como o Ministério está incorporando a perspectiva de justiça climática, com recorte de raça, gênero e território, nos planos de adaptação em desenvolvimento, bem como o papel das soluções baseadas na natureza nos territórios periféricos e comunidades tradicionais.
a) Comunicação para a população: Solicitamos esclarecimentos sobre quais estratégias e protocolos estão sendo desenvolvidos para comunicar riscos climáticos às populações periféricas, negras e de comunidades tradicionais, grupos historicamente sub-informados em situações de emergência. Qual é o plano de comunicação antecipada, acessível e territorialmente sensível para os eventos associados ao Super El Niño?
b) Articulação com estados e municípios a partir do Programa Cidades Verdes e Resilientes: Solicitamos informações sobre como o Ministério pretende fortalecer, ampliar e acelerar as respostas de adaptação e prevenção emergenciais frente ao PCVR.
4. Ministério das Cidades
Pedido de reunião e esclarecimentos: Solicitamos reunião para compreender como o Ministério está articulado com estados e municípios para garantir que a adaptação climática e a realocação digna de populações em zonas de risco sejam prioridades estruturais, e não exceções.
a) Comunicação para a população: Solicitamos esclarecimentos sobre quais estratégias e protocolos estão sendo desenvolvidos para comunicar riscos climáticos às populações periféricas, negras e de comunidades tradicionais, grupos historicamente sub-informados em situações de emergência. Qual é o plano de comunicação antecipada, acessível e territorialmente sensível para os eventos associados ao Super El Niño?
b) Fortalecimento e expansão dos planos comunitários de gestão de riscos e desastres: Solicitamos informações sobre como o Ministério pretende fortalecer, ampliar e financiar os planos comunitários de gestão de riscos e desastres, especialmente aqueles desenvolvidos com e pelas próprias comunidades, garantindo a participação de mulheres negras, indígenas, quilombolas e lideranças periféricas como protagonistas desses processos.
c) Orçamento para prevenção e gestão da emergência: Qual o orçamento de prevenção e emergência destinada para cidades com probabilidade de impactos e desastres com a chegada do El Ñino?
d) Habitação: como o programa “Minha Casa, Minha Vida” será utilizado para fortalecer, realocar e garantir a segurança das populações vulnerabilizadas no pós-desastre com celeridade, garantindo o cumprimento do art. 8, IV e VIII, da Lei 14.620/2023?
Considerações finais:
A chegada do Super El Niño não é apenas a passagem de um fenômeno meteorológico, é um espelho das desigualdades que o Brasil ainda se recusa a enfrentar com seriedade. Cada morte evitável de uma pessoa negra, periférica, quilombola ou indígena em um desastre climático é uma falha do Estado. E essa falha tem cor, tem endereço e tem solução, se houver vontade política para priorizá-la.
Sabemos da responsabilidade de estados e municípios nessas estratégias, e estamos articulados de forma nacional para cobrar e monitorar as ações municipais e estaduais que estão sendo realizadas. E justamente, por essa preocupação com a articulação federativa de respostas que essa carta se direciona ao governo federal.
Estamos disponíveis para o diálogo, para a construção conjunta e para contribuir com nossa experiência acumulada nos territórios. Mas exigimos ação diante das previsões, além de um tratamento adequado enquanto interlocutoras e interlocutores legítimos, não como acessórios de uma política que segue ignorando quem mais precisa.
Atenciosamente,
Rede por Adaptação Antirracista e Rede de Organizações do Observatório do Clima
Contato: Thaynah Gutierrez Gomes
E-mail: comunicaantirracista@gmail.com
Assinaturas das organizações que compõem as redes:
- Geledés – Instituto da Mulher Negra
- Associação Solidária GRIS
- Greenpeace Brazil,
- Ressuscita São Gonçalo
- Centro Brasileiro de Justiça Climática
- Instituto Duclima
- 350.org Brasil
- IIEB
- The Institute Climate Politics
- AMDA – Associação Mineira de Defesa do Ambiente
- Instituto Fronteiras
- Observatório da Branquitude
- Conectas Direitos Humanos
- TETO Brasil
- Instituto Fórum Permanente São Francisco
- Casa Fluminense
- Coletivo Rep Nazarea
- Palmares Laboratório Ação (Palmares Lab)
- Plant-for-the-Planet Brasil
- Clima Queer
- Caranguejo Tabaiares
- Associação Alternativa Terrazul
- ActionAid
- Instituto Alziras
- Rede Vozes Negras pelo Clima/ RVNPC
- FunBEA_ Fundo Brasileiro de Educação Ambiental
- Coletivo GAYA
- Coletivo Jovem Muká Mukaú
- Instituto Água e Saneamento (IAS)
- Instituto Caminhabilidade
- Instituto Árvores Vivas para Conservação e Cultura Ambiental
- Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais
- Amazônia de Pé
- Instituto Decodifica
- Escola de Ativismo
- CEERT – Equidade Racial e de Gênero
- Ação da Cidadania Contra a Fome
- ISPN – Instituto Sociedade, População e Natureza
- Aurora Lab
- Instituto de Estudos da Religião (ISER)
- Instituto de Estudos e Pesquisas Omó Nanã
- Ocupação Cultural Jeholu
- Instituto Alana
- SER
- Iniciativa PIPA
- RESAMA (Rede Sulamericana para Migrações Ambientais)
- INESC
- Perifa Connection
- Pretas pelo Clima
- Associação de Jovens Engajamundo
- Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS)
- Gambá – Grupo Ambientalista da Bahia
- Instituto 5 Elementos
- Coalizão Negra por Direitos
- Rede de Mulheres Negras de Pernambuco
- Articulação Negra de Pernambuco
- Movimento Negro Evangélico
- Proteção Animal Mundial Brasil
- Instituto Perifa Sustentável
- Coletivo Utopia Negra
- Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos (LabHab) – FAU/USP
- Movimento das Cartas de Direitos Climáticos
- Criola
- Laboratório de Planejamento Territorial LaPlan – UFABC
- OMA-BRASIL (Associação Organização da Sociedade Civil de Interesse Público
Mobilidade e Ambiente Brasil) - Instituto Guaicuy
- Ilhas do Rio
- Centro de Estudos da Favela (Cefavela – Ufabc)
- LabJuta – Laboratório de Justiça Territorial/UFABC
- PerifaLab
- Bancada do Clima
- Instituto Pólis
- Rede Cerrado
- Oxfam Brasil
- Instituto Voz dos Oceanos
- Associação Angá
- Instituto Brasileiro de Direitos Urbanísticos (IBDU)
- Documento na íntegra: https://cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso/roni/strengths/ ↩︎
- Documento na íntegra: https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/noticias-cemaden/copy2_of_SEI_MCTI13770843NotaTcnica.pdf ↩︎









