Mudanças climáticas nas eleições: Como o seu voto define o clima?

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Autor: M.Sc. Rafael D. Souza do Instituto Ecoe, Parceiro Vote pelo Clima.
Revisão: Samantha Costa, Coordenadora de Comunicação do Clima de Política e Beatriz Pagy, Diretora Executiva do Clima de Política.

Você provavelmente já ouviu falar que a ciência tem alertado sobre o futuro do nosso planeta. Mas de onde vêm os dados mais confiáveis sobre isso?

A resposta atende pela sigla IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).  Esse é um órgão criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) que reúne cientistas de todo o mundo com uma missão clara: analisar milhares de pesquisas e diagnosticar como a mudança do clima está afetando o planeta.

É a partir desse raio-x global que entendemos a relevância de debater as mudanças climáticas nas eleições. Afinal, as decisões que tomamos nas urnas definem como as nossas próprias ações impactam diretamente o ecossistema e a nossa sobrevivência.

1. Como a produção desenfreada coloca o seu dia a dia em risco

Um dado importante revelado pelo relatório do IPCC é o impacto dos “fatores não climáticos” induzidos pelas atividades humanas. Os meios de produção de alto impacto aumentam severamente a nossa vulnerabilidade.

Isso abrange desde a agricultura intensiva (uma das atividades industriais que mais consome água e que mais emite gases de efeito estufa no Brasil) e a mineração, até cadeias complexas como a indústria têxtil, metalúrgica e a construção civil.

Essas indústrias provocam:

  • Alterações prejudiciais no uso do solo;
  • Consumo insustentável de recursos naturais;
  • Poluição e degradação profunda dos ecossistemas.

Estes efeitos já são percebidos no desmatamento de biomas brasileiros e no embranquecimento de recifes de coral, por exemplo. Esses efeitos já interferem  na biodiversidade marinha e destroem a fonte de renda de comunidades pesqueiras costeiras.

A crise climática não é um problema distante: ela já encarece seus alimentos e seu custo de vida, devido às secas severas ou alagamentos das áreas de cultivo. Outros impactos menos óbvios são: a insegurança ao andar nas ruas, devido o aumento da violência em casos de eventos climáticos extremos, ou o surgimento de novas doenças.

Como essa degradação de ecossistemas é impulsionada pelo modelo econômico, baseado no modelo produtivista e extrativista sem limites ou salvaguardas socioambientais é preciso agirmos de maneira estrutural e politicamente. E você pode fazer parte dessa mudança política que precisamos para conter a crise climática por meio de um voto consciente nessas eleições, e escolhendo candidaturas com compromissos e propostas climáticas.

2. O impacto desigual da crise climática: por que os mais pobres pagam mais caro

De acordo com Kimberlé W. Crenshaw, a interseccionalidade retrata a forma pela qual o racismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam a sociedade. As ações e políticas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, desempoderando esses grupos vulneráveis. Por isso, a justiça social e o combate à crise climática caminham juntas.

O relatório aponta que a vulnerabilidade das comunidades frente a esses padrões de intersecção social é alarmante. Quase metade da população mundial vive hoje em contextos altamente expostos às mudanças do clima.

Catástrofes ocorridas na Bahia, Minas Gerais e no Rio de Janeiro e, mais recentemente, no Rio Grande do Sul e no estado do Paraná, revelam fatores que ampliam a vulnerabilidade. Entre eles estão a desigualdade extrema, a marginalização de grupos e padrões históricos como o colonialismo e a má governança. Além disso, o comprometimento de serviços ecossistêmicos afeta diretamente populações indígenas e comunidades locais, que dependem de seus territórios para sobreviver e produzir.

Nesse padrão de desenvolvimento econômico, os lucros são privados e priorizados na política, já  os problemas sociais e ambientais são distribuídos para os cidadãos. Entender o cenário atual exige compreender a diferença em como as pessoas são afetadas de forma diferente por desastres climáticos. 

A vulnerabilidade climática é agravada por  barreiras já antigas na nossa organização social, como: o racismo, o machismo, a homofobia e o capacitismo, que impõem desafios imensos para que esses grupos se adaptem aos eventos climáticos extremos. Quando catástrofes climáticas acontecem, a falta de infraestrutura urbana adequada e a desigualdade extrema tornam esses desastres devastadores para as populações já marginalizadas.

E é nas urnas um dos principais momentos para agir. O debate sobre as mudanças climáticas nas eleições ajuda a definir quem criará políticas públicas sérias de moradia e prevenção de desastres, protegendo os mais necessitados.

3. A urgência de ouvir a natureza e valorizar o saber tradicional

A janela de oportunidade para um desenvolvimento resiliente ao clima está se fechando rapidamente. De acordo com o novo relatório do PNUMA, o planeta já ultrapassou o limite de aquecimento de 1,5ºC, considerado mais seguro para a sobrevivência na Terra, a meta antiga do Acordo de Paris (principal acordo internacional climático). De acordo com o relatório, é pouco provável que consigamos reverter este cenário ainda neste século. 

Os riscos climáticos são muito maiores em locais vulneráveis como encostas, pequenas ilhas, desertos e regiões polares. Diante disso, é urgente ampliar o investimento público e privado em mitigação e adaptação.

O IPCC destaca que a conservação, preservação e restauração de ecossistemas degradados são fundamentais para aumentar a resiliência. Práticas agroecológicas e agricultura urbana apresentam excelente viabilidade. Outro destaque é a valorização do saber tradicional e local. O reconhecimento dessas culturas é um princípio fundamental para promover a justiça climática e respeitar a diversidade étnica.

No Brasil, onde há um histórico de perseguição e pressão sobre a demarcação de territórios indígenas, apoiar esses saberes é vital. O tempo está correndo, e os efeitos da inação política já batem à nossa porta, ou melhor, já alagam e invadem as casas. Usar o voto nas mudanças climáticas nas eleições para eleger pessoas que respeitam a ciência, estão comprometidas com a defesa da democracia, com os direitos dos povos indígenas e das pessoas historicamente marginalizadas e mais vulneráveis é a medida mais estratégica para garantir uma vida digna para todas as gerações. 

4. Gestão pública: por que a crise do clima é uma crise política

Os maiores obstáculos à implementação da resiliência climática são regionais, institucionais e financeiros. Falta, sobretudo, fomento para a adaptação. Os atuais fluxos financeiros globais para a adaptação climática são insuficientes, limitando de forma direta a execução de ações de mitigação, especialmente nos países em desenvolvimento.

A governança inadequada agrava essa realidade. Soluções mal planejadas, curtas e fragmentadas, que ignoram a participação das populações tradicionais, geram graves efeitos colaterais.

Portanto, o maior empecilho não é a falta de tecnologia, mas a falta de vontade política. A crise climática é, no fundo, uma crise de representação e fiscalização política. Por isso, as mudanças climáticas nas eleições devem ser vistas como uma ferramenta de cidadania ativa. Exija que os recursos dos seus impostos sejam destinados a infraestruturas e resiliência de longo prazo.

5. O retrocesso socioambiental e o poder de mudança em suas mãos

No Brasil, o cenário recente andou na contramão das recomendações científicas do IPCC. Incentivado por setores como a bancada ruralista e de mineração, o governo federal flexibilizou medidas cruciais de proteção ambiental.

As medidas aprovadas por estas bancadas no congresso hoje têm contribuído ainda mais para o desmatamento, os conflitos e a violência no campo e a ameaça à biodiversidade, o que contribui para aumentar o risco climático em todo o país. No entanto, esse modelo de curto prazo passa longe de gerar resiliência para a população. Quando representantes apoiam o desmonte das leis ambientais, eles não afetam apenas biomas distantes como a Amazônia. Eles encarecem o seu custo de vida e ameaçam a economia nacional e contribuem para colocar a sua vida em risco.

Reverter esse quadro é possível com mobilização social nos territórios e participação ampla na política. O voto consciente é um desses instrumentos essenciais de participação. Trazer o debate sobre mudanças climáticas nas eleições é uma das principais formas de eleger projetos viáveis para a biodiversidade e para todos nós.

Conclusão: Use a força do seu voto

Agora que você já entende melhor como a  crise climática afeta a sua vida e como ela  é decidida na política, vamos olhar para isso nessas eleições?

-> Acesse https://votepeloclima.org/ e conheça as candidaturas comprometidas com o clima e suas propostas! No site, você poderá filtrar candidaturas por localidade, gênero, raça, orientação sexual, e suas bandeiras políticas.

Não deixe o futuro do nosso planeta para depois. Compartilhe este artigo com seus amigos nas redes sociais e espalhe a urgência de debatermos as mudanças climáticas nas eleições!

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Este conteúdo foi criado usando como referência matérias jornalísticas e pesquisas científicas. Quer se aprofundar no tema? Recomendamos fortemente que acessem as nossas referências bibliográficas abaixo!

  • IPCC, 2022: Summary for Policymakers [H.-O. Pörtner, D.C. Roberts, E.S. Poloczanska, K. Mintenbeck, M. Tignor, A. Alegría, M. Craig, S. Langsdorf, S. Löschke, V. Möller, A. Okem (eds.)]. In: Climate Change 2022: Impacts, Adaptation, and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [H.-O. Pörtner, D.C. Roberts, M. Tignor, E.S. Poloczanska, K. Mintenbeck, A. Alegría, M. Craig, S. Langsdorf, S. Löschke, V. Möller, A. Okem, B. Rama (eds.)]. Cambridge University Press. In Press. Disponível em: https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg2/

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