Ecos da COP: Clima está na boca do povo? Como os parlamentares avaliam a popularização da agenda de clima e como avançar?

Como os parlamentares avaliam a popularização da agenda de clima na população brasileira e como avançar nos próximos anos?

Por Larissa Alem

Entre os dias 10 e 21 de novembro, Belém abrigou a 30ª Conferência das Partes sobre Mudança Climática das Nações Unidas, a COP30, período em que foi a capital do Brasil. Lá estiveram presentes pessoas de todos os 195 países do mundo, incluindo chefes de Estado, ministros, diplomatas, parlamentares, representantes de povos indígenas e comunidades quilombolas, integrantes de movimentos sociais e organizações da sociedade civil, pesquisadores, empresários, dentre tantas outras.

Por lá, viu-se atividades de toda sorte, desde as reuniões dos negociadores até a Marcha Global pelo Clima, passando pela barqueata indígena, encontros de crianças e jovens, palestras de especialistas, e diálogos bilaterais e multilaterais. Neste contexto, o Clima de Política coordenou e apoiou diversas atividades com parlamentares, incluindo diálogos para trocas de experiências e estratégias, eventos para compartilhar compromissos parlamentares com a agenda climática e a entrega da carta dos parlamentares ao secretariado da ONU Mudanças Climáticas (UNFCCC, em inglês) pela formalização de uma constituinte parlamentar – ou um espaço formal para parlamentares no âmbito da UNFFCC. Mais detalhes podem ser encontrados no nosso Linkedin).

Os parlamentares possuem um papel duplo e crucial para a transição justa: a tradução dos compromissos internacionalmente assumidos em políticas públicas nacionais e a fiscalização do cumprimento desses compromissos nas políticas públicas dos Executivos. Entre pavilhões, bilaterais e salas de negociação, nossa equipe dialogou com 15 parlamentares brasileiros dos três níveis de governo (federais, estaduais e municipais) para entender se as mudanças climáticas são uma pauta popularizada entre os brasileiros, se esse tema ainda sofre com desinformação e notícias falsas, e se vamos falar de clima nas eleições de 2026.

Primeira pergunta: de 1 a 5, o quanto você considera que a pauta das mudanças climáticas está popularizada na sociedade brasileira?

Dos 15 parlamentares entrevistados, 10 (ou 66%) acreditam que a pauta das mudanças climáticas está parcialmente popularizada na sociedade brasileira (pontuação: 3 de 5). A deputada estadual do Pará e anfitriã da COP30, Lívia Duarte, diz que a popularização da agenda não está dada: “Há uma estratégia neoliberal de colocar clima em uma caixa. Então, desabamento é uma coisa, escola ruim que fica alagada é uma coisa. E clima é uma terceira coisa.” Para superarmos as limitações da narrativa, precisamos entender as mudanças climáticas como uma pauta transversal, que cruza todas as outras políticas públicas. Olhando a partir da atuação nacional, o deputado federal Fernando Mineiro afirmou que ainda há uma baixa compreensão em comparação com quão altos são os efeitos das mudanças climáticas: “Nós temos um descompasso nessa questão.”

O que os parlamentares relatam é uma lacuna entre reconhecer a crise climática e correlacionar com outros temas que estão no cotidiano das pessoas. “A gente tem uma popularização dos problemas que as mudanças climáticas estão trazendo, em especial no que tange a necessidade de adaptação climática, de redução de riscos, mas ainda sinto um espaço de entendimento do quanto isso está ligado diretamente com outras questões desse ecossistema de mudanças climáticas, como transição energética, como trato de resíduos sólidos, como modelo econômico e social que a gente vive, como compromissos de governo”, relata Yuri Moura, deputado estadual do Rio de Janeiro.

Outro exemplo dessa desconexão é colocado pelo deputado federal Tarcísio Motta, no sentido de que a maior vivência de desastres socioambientais gera uma reflexão sobre a questão climática, mas o debate precisa se aprofundar: “todo o debate sobre a questão do aquecimento global, sobre a necessidade de mudança nos rumos da economia, de um modelo de desenvolvimento que incorpore a questão climática, ainda não é algo incorporado pela própria população.”

Recentemente, uma pesquisa apontou que 9 a cada 10 brasileiros consideram que sofreram impactos das consequências das mudanças climáticas em suas vidas (Datafolha, 2023). Em dezembro de 2023, pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicou que mais de 90% dos brasileiros consideram grave ou gravíssimo os efeitos das mudanças climáticas em suas vidas cotidianas. Em 2024, pesquisa da Genial/Quaest identificou que 99% dos brasileiros acreditam que a tragédia no Rio Grande do Sul teve ligação com as mudanças climáticas. Indo ao encontro do que apontaram estas pesquisas, Juliana Cardoso, deputada federal, afirmou que “As pessoas começam a perceber nos seus corpos essa crise climática. E também já começando a perceber na sua mesa. Porque a falta de algum alimento ou estarem caros os alimentos não é simplesmente por conta da inflação”.

Segunda pergunta: 1 a 5, o quanto você considera que a desinformação sobre as mudanças climáticas contribui negativamente para a popularização do tema?

Dos 15 parlamentares entrevistados, 11 acreditam que a desinformação sobre as mudanças climáticas contribui muito negativamente para a popularização do tema (pontuação: 5 de 5). Deve-se considerar que o negacionismo não apenas prejudica o entendimento da agenda, mas também atrasa políticas mais progressistas para uma pauta de extrema urgência. “Informação é poder. E tem poder quem tem informação”, descreve Maria do Carmo, deputada estadual do Pará.

Neste ano, o relatório “Risco Global 2025”, do Fórum Econômico Mundial, com base na experiência de 900 especialistas, destacou que a falta de informação e a desinformação são os maiores riscos que corremos nos próximos dois anos, em todo o mundo. Com o advento das IAs, esse risco se elevou. Vale destacar que a desinformação afeta qualquer política pública. “A desinformação contribui para que as pessoas não saibam o que realmente está acontecendo, colocando vidas em risco, então é muito grave”, relata Eduardo Zanatta, vereador de Balneário Camboriú. Uma das grandes lacunas para o enfrentamento da desinformação é a não regulamentação das redes sociais, afirma o deputado federal Túlio Gadelha: “O negacionismo acontece de maneira às vezes pensada, estratégica, no intuito de projetar algumas figuras políticas. Isso interfere na política e na política pública.”

É importante destacar, ainda, que a desinformação se dissemina em um contexto de desigualdades. É o que descreve a deputada federal Jack Rocha: “O negacionismo climático hoje também está muito voltado a setores que querem a concentração das rendas. As pessoas que estão dentro de iates de luxo negam as mudanças climáticas, quando a população ribeirinha sequer consegue ter um motor para seu barco ou até mesmo uma canoa, mais equipada para a sua própria existência.” Nesse sentido, vale ressaltar que o Tribunal de Contas da União, no Acórdão 1914 de 2025, afirma que “a proteção das parcelas mais vulneráveis na gestão de riscos também é uma questão de justiça social e direitos humanos.”, apontando para a necessidade de termos, no Brasil, políticas elaboradas a partir da compreensão das vulnerabilidades destas pessoas.

Terceira pergunta: Você acredita que a pauta das mudanças climáticas será um dos principais temas das eleições para o Legislativo em 2026?

Dos 15 parlamentares entrevistados, 8 acreditam que sim, será um dos principais temas das eleições de 2026, enquanto os demais pensam que não, têm dúvidas ou não será prioritária. Apesar dos sentimentos divididos, os parlamentares tendem a concordar que precisamos pensar em narrativas melhores para contribuir com a popularização deste tema. “Eu tenho uma expectativa muito grande de que a COP30 vai ter um efeito de mudança cultural por um bom tempo nesse debate de enfrentamento da crise climática”, diz o deputado federal Nilton Tatto.

Pesquisa do Banco Europeu de Investimentos apresentou a percepção da população de 13 países latino-americanos sobre as mudanças climáticas e as respectivas expectativas em relação às políticas públicas para o tema. No caso do Brasil, 78% da população apoia medidas rigorosas e investimentos em fontes renováveis, e parte significativa (65%) já sente os efeitos na renda familiar. Os dados mostram grande aprovação de ações governamentais mais rigorosas para combater as mudanças climáticas, indicando a disposição social para aceitar mudanças políticas e de estilo de vida em prol da sustentabilidade ambiental a longo prazo.

O deputado estadual Guilherme Cortez chamou a atenção para as pesquisas feitas por instituições, alertando que “entre reconhecer que o problema existe e entender a necessidade de ação política, tem um caminho e vários obstáculos”. Apesar de desafiador, os parlamentares que estiveram na COP30 e que defendem a agenda climática estão engajados com a construção de uma narrativa que coloque o tema na centralidade das eleições.

Herbert Santos de Lima, vereador de São Lourenço, MG, também vê uma evolução nos debates: “é um discurso que tem mudado muito de onde a gente está saindo da discussão do urso polar, da calota derretendo, para um nível mais local sobre como isso está atingindo as pessoas no dia a dia. Estou falando aqui do dia a dia, de segunda a sexta, da pessoa que vai enfrentar a enchente, vai enfrentar a chuva, vai enfrentar o calor, vai enfrentar um incêndio florestal, a fumaça na cara todos os dias e a vulnerabilidade”.

Acabou a COP, E agora?

Os resultados indiretos de uma COP vão muito além dos textos finais das decisões climáticas. Há de se reconhecer que a realização de uma COP no coração da Amazônia trouxe uma visibilidade sensorial e simbólica para o tema das mudanças climáticas. Dilvanda Fato, deputada federal pelo Pará, destaca: “Aqui tem o reflorestamento produtivo, tem o reflorestamento do clima, da Amazônia. E a floresta ainda está em pé, ainda tem muita água. Então eles [os participantes da COP30] estão vendo isso. Fazer dentro do coração da Amazônia é uma coisa. Fazer, só discutir em sala de quatro paredes é outra.”

Para além dos espaços de negociações internacionais, cada país deve levar as reflexões e demandas para seu próprio território. Apesar das criticadas ausências de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e Javier Milei , atual presidente da Argentina, o deputado federal Chico Alencar se mostrou otimista: “O fato de ter delegações de 195 países vai fazer com que essa COP reverbere mais.”

A sociedade civil brasileira certamente soube aproveitar a conferência, especialmente nos espaços paralelos e descentralizados. Essa atenção deve continuar para que não se torne um tema passageiro e, sim, uma pauta cada vez mais familiar. A COP30 terminou e é hora de seguirmos com o nosso papel como sociedade civil, de acompanhar a implementação e contribuir com os debates com responsabilidade. E é papel dos parlamentares, como representantes do povo e propositores de políticas públicas, dar seguimento a políticas climáticas mais ambiciosas. Nas palavras de Ingrid Sateré Mawé, vereadora de Florianópolis, SC: “Apesar de termos muitas leis ambientais, poucas são especificamente direcionadas às questões climáticas. Precisamos revisar nossas leis e garantir que haja pessoas no Legislativo que compreendam a urgência dessas questões.”

É tempo de ação climática parlamentar, mais do que nunca. Se 90% da população brasileira sente os efeitos negativos das mudanças climáticas em suas vidas, estamos falando de pessoas que votaram em parlamentares de todos os espectros políticos e ideológicos. As mudanças climáticas não respeitam as fronteiras dos países, estados, cidades, tampouco escolhem pessoas que votaram à esquerda ou à direita. Elas afetam todas as pessoas, de forma desigual àquelas mais vulnerabilizadas por problemas como a falta de saneamento, de acesso à água, a fome, a falta de habitação digna, entre outros. É dever ético e moral dos parlamentares brasileiros, como representantes do povo e propositores de políticas públicas, responderem ao anseio popular, de garantirem direitos fundamentais, incluindo o direito à vida.


Larissa Alem é coordenadora de pesquisa no Instituto Clima de Política (CdP), com especialidade em políticas públicas para redução dos riscos de desastres, bacharel em direito pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Gestão Ambiental pela Universidade de Kyoto (KU). 


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